sábado, 27 de dezembro de 2008

Nargolith

Na mais profunda das tumbas, bem abaixo do coração de Nargolith, a maior montanha do norte, em um lugar onde até mesmo as rochas são negras e nenhum ser da superfície seria capaz de sobreviver por um mero segundo, havia uma prisão. Não uma prisão qualquer com grades e portas, mas uma prisão criada por magia, supostamente a mais poderosa da época em que os dragões ainda voavam pelos vales.
A tal prisão era de um formato ovalado com uma junção feita com um material que já não existia mais e até onde os homens julgavam inquebrável. Estava incrustada abaixo de milhões de toneladas de rocha e que nem mesmo os mais hábeis anões existentes seriam capazes de alcançar.
Hoje há poucos no mundo que conhecem sua existência, que virou praticamente uma lenda, um fantasma de um passado remoto atormentado pelas sombras. Mas uma coisa que nem mesmo as mais antigas árvores se lembram é o ser, criatura ou demônio que foi aprisionado abaixo da montanha. Um ser tão terrível e pavoroso que mereceu ser esquecido e extinto da face do mundo, até ser banido dos pensamentos dos homens e elfos.
Mas ele não esqueceu.
Do tormento, da dor, rancor e ódio, corroendo seu já desestruturado corpo por centenas, ou até milhares de anos. Totalmente sozinho, sem luz, sem ruídos, sem água e sem comida, obrigando-o a devorar seu próprio corpo, começando pelos dedos das mãos. Que já não existiam a muito tempo.
Seus olhos, hoje já secos não tinham mais brilho, na verdade não tinham mais nada. Eram apenas dois poços sem fundo onde a vida se acabava.
Mais em meio a tantos horrores que passou por todos esses anos, ele aproveitou cada instante se sua prisão para aumentar seus poderes mágicos, pois ele era um mago negro, que em sua época fora o mais poderoso.
Seu poder atual era impossível de se calcular, nem mesmo ele sabia sua amplitude. Estava apenas aguardando o momento de emergir novamente e ter outra vez a Terra a seus pés. Ele crescia, sentia que crescia. Se já era poderoso antes, imagine agora.
Então chegou o dia.
Ele achara que chegara.
Uma chama brilhou em seus olhos, mesmo que por um segundo, e a montanha tremeu. Pedras rolaram em avalanches levando pedaços da montanha abaixo. As águias que faziam seus ninhos por alí sentiram o poder abaixo delas e voaram para longe, para nunca mais voltar. O gelo acumulado no topo começou a derreter, criando novos rios que logo eram eram evaporados.
Mas o pior de tudo estava por vir. Um feixe de luz atravessou o espaço, clareando o cêu naquela parte do mundo. Então a montanha explodiu em milhões de pedaços, como se uma pedra vindo do espaço a tivesse atingido. Depois que a poeira abaixou o que restou apenas foi uma gargalhada hedionda que fez com que a vida nos vales ao redor se extinguisse, secando rios e matando animais e plantas.
Nesse exato momento, Nelfil acordou suando frio em sua cama, a dois mil e trezentos quilômetros dalí. Levantou, vestiu sua capa e chapéu, pegou seu cajado em um canto e saiu pela porta.


Aquela era uma estranha noite. O vento soprava quente, como se um dragão gigantesco estivesse baforando por alí. As estrelas estavam com um brilho tênue e parecia que iam se apagar a qualquer instante, assim como a lua já fizera, no momento que uma nuvem negra vindo do norte a apagara do céu.
Nelfil andava em meio as casas em um passo apressado, apoiando-se em seu cajado e usando uma grossa capa, que de tão surrada pelo tempo já não se sabia a cor, envolvendo seus mirrados ombros. Uma barba cinzenta e emaranhada descia de seu pontudo queixo até a altura do umbigo. Bem como seus cabelos, que precisavam de uma boa esfregada. Quem olhasse Nelfil naquela noite imaginaria que fosse um mendigo, louco para encontrar um canto para repousar ou uma garrafa com algum líquido alcoólico.
Mas ele não era um mendigo. Por baixo de toda poeira de sua capa havia um mago, que sustentava anos de existência e sabedoria; que era sua especialidade.
Ele não tinha o poder de manifestar grandes mágicas, mas seu conhecimento era muito vasto. Aprendera diversas línguas, antigas e atuais, até mesmo a língua grutual dos trolls e a estranha fala das árvores, que poucos sabiam ouvir. Se ele era sábio certamente isso se deve de suas longas andanças pela vastidão do mundo. Desde os mais remotos campos do leste, até o extremo norte, onde poucos se aventuram. E é claro que conhecia a parte sul do mundo, onde vive o Rei em seu castelo flutuante.
Cruzando por uma esquina onde havia uma taberna, Nélfil parou. A sua frente já se via o campo aberto, onde uma estrada seguia em linha aberta rumo ao norte, ladeada por algumas casas no começo. Apertando seus olhos o mago tentou enxergar longe, mais além da cadeia de montanhas de Sítion, e por um breve instante ele pensou ver uma faixa vermelha de luz bem na linha do horizonte, como se houvesse alguma coisa em chamas. Mas sua visão não era das melhores e logo não enxergou mais nada.
Depois de um tempo parado com o vento morno batendo em seu rosto, ele caiu em sí. Por que havia acordado suando e assustado? E por que a vontade de sair no meio da madrugada e olhar para o norte? E pior, por que seu pensamento voltou para o passado, para as eras antigas que eram tumultuadas pelas guerras?
Ficou um tempo ali pensando até que uma mudança repentina no vento fez seu chapéu voar. O vento agora estava frio e vinha do leste. A lua aparecera novamente e as estrelas pareciam que se incendiaram de novo. Só restou a Nélfil voltar para sua pousada.
O sol já ia alto quando o mago acordou de sua tumultuada noite. Levantou-se e foi lavar o rosto em uma bacia de água, que a bem dizer não era uma água muito louvável, mas Nélfil já nem ligava.
Tivera um sonho estranho depois que voltou para cama de madrugada. Sonhou que criaturas aladas rodeavam seu corpo, que estava estendido em cima de uma altíssima torre e ao seu lado havia um guerreiro que bravamente tentava afugentar as criaturas. E o que mais chamou a atenção de Nélfil nesse guerreiro é que ele usava duas espadas e as manejava com uma habilidade incrível. Logo depois que uma dessas criaturas conseguira cravar suas presas no espadachim o mago acordou.
Após um rápido e miserável café da manhã, vestiu sua capa e seu chapéu e saiu pela porta, não antes de dar uma última olhada para dentro, para ver se não havia esquecido de nada. Andou dois quarteirões descendo a ladeira e parou em frente a uma outra porta, que pertencia a uma casa grande e elegante. Com seu cajado, Nélfil deu três batidas fortes.
Quem abriu a porta foi um sujeito gordo, careca e com um bigode espesso cortando seu rosto arredondado.
- Há! É você. – disse o gorducho.
- Vou-me embora desta cidade. – apressou-se em dizer Nélfil. - Vim acertar minhas contas. Vejamos, foram dois meses e dezessete dias. Quanto te devo?
O careca que era o dono da casa calculou alguns números para sí mesmo e olhou para o mago, que mais parecia um mendigo errante, de baixo para cima e imaginou se ele teria dinheiro para pagar a pensão. Depois disse por fim:
- Tudo bem, uma moeda pequena de bronze pode pagar por sua estadia.
- Certo. – Respondeu o mago, que vasculhava por todos os bolsos a procura de uma moeda, até que olhou debaixo do chapéu e encontrou o pagamento.
- Aqui está! Muito obrigado e adeus.
Nélfil se virou e já ia indo embora quando o dono o chamou novamente.
- Me desculpe pela intromissão, mas caso alguém pergunte, para onde está se dirigindo?
- Não se preocupe, ninguém irá perguntar. Adeus.
O mago então em passos lentos continuou descendo a ladeira que ia dar na estrada que rumava para o norte.

4 comentários:

isabella ferraro disse...

Mateus e sua criação infinita de blogs ^_^
Abraço!

Mateus Henrique Zanelatti disse...

sempre seguindo em frente...
:)

Diana disse...

belo blog!
=]
=*

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Obrigado!
Apareça mais vezes!

Abração!