sexta-feira, 3 de julho de 2009

50 contos!


Mar amigo

— Ta gostando, Jacinto?
Jacinto olha pela janela, o corpo todo voltado para ela. Faz que sim com a cabeça. Os olhos andam e andam, extasiados com a beleza das estradas.
— Você vai ver só que coisa linda é o mar, Jacinto.
E ele sorri. A coisa que mais espera é o mar. O sono não veio na noite passada, só pensava em mar.
— O mar é grande?
— Já disse que sim. Mas carece de ter medo não, viu?! É só ficar na beiradinha.
Ele pôs-se a pensar em como seria a beiradinha do mar. Uma raposa passou correndo e o mar se perdeu no pensamento. A raposa no alto da colina, encarando Jacinto. Jacinto encarando a raposa.
— Raposa, vem comigo ver o mar. — A raposa nada disse. Saiu correndo mundo afora.
— Vem, Jacinto. A praia.
Os pés pisaram na areia quente, um susto! Um grito!
— Cuidado, menino. Põe o chinelo.
Jacinto vê um par de bunda despontando no seu caminho.
— Olha só, mãe, a moça pelada.
— Menino, venha embora.
As moças acham graça da bobagem de Jacinto, acham graça da burrice e da cara de Jacinto. Jacinto ri para as moças.
— Olha só, Jacinto.
Olha só ele. Ele ta ali. Jacinto fica como estátua, olhando, olhando. Quase não pode acreditar. O mar é lindo mesmo. Parece um velho, com uma barba que balança. Tão calmo, as ondas parecem a respiração do mar. Ele respira e expira, respira e expira. Como é bom o mar.
— E tem peixe aí dentro?
— Tem.
— E lula?
— Tem.
— E tem tubarão?
— Tubarão não.
— Que bom.
Jacinto toca o mar. O mar é tímido, se esquiva. Ele insiste e o mar se entrega. O mar é engraçado. E que água salgadinha que ele tem.
— Jacinto, não vá pra longe.
E por que não? Não seria bom ir mais pra dentro, entrar no mar. Seria sim, seria um sonho. Jacinto tem medo, mas tem vontade. O mar é lindo. Só mais um pouquinho. Jacinto avança, o mar chamando. O mar lhe dá uma tapa. Mas que danado! Jacinto revida, o mar faz de novo.
— Olhe, assim não! — Grita, irritado. O mar se acalma. Jacinto emburrado, senta na areia molhada.
— Você é mal, mar. O mar não responde. Vem devagarzinho e faz carinhos nos pés do menino, sopra no seu ouvido, joga no seu rosto respingos de sal e água. Quer fazer as pazes. Jacinto sorri. Está apaixonado. O mar chamando, chamando. Jacinto vai, aceita as desculpas.
— Jacinto, vamos! Já é hora.
Jacinto chora, não quer. A mãe insiste e ameaça. Com uma pedra no coração, o menino abraça o mar mais uma vez. O mar o beija, o acarinha. O mar também é seu amigo.
— Amo você, mar.
O mar sorri e balança a sua barba branca na sua respiração solene e pausada.

Ana Karenina, 06/2009
Para mais contos visitem: http://acrossalltheuniverse.blogspot.com/

5 comentários:

Ana Karenina disse...

Poxa, Mateus, essa sensação foi íncrivel!
Obrigada por tê-la me proporcionado.

Parabéns pela 50ª postagem, e continue escrevendo com a alma, como sempre faz.

Obrigada mesmo.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Mateus,

a primeira vez que eu vi o mar, eu tive medo de Deus.

eu tinha 6 anos e era ateu, mas senti Deus ali, e tive medo.

Isadora disse...

Eba
Parabéns Mateus pelos 50 contos postados.
E parabéns a Ana pelo lindo conto sobre o mar, é o segundo dela que leio sobre e como o outro é lindo.

Adorei os balões na sua foto rsrs.
bjus

MargueRita disse...

Parabéns pela 50ª postagem, Mateus!

E parabéns para autora deste último post!
Fantástico!


Bjs

Mateus Henrique Zanelatti disse...

OBRIGADOS!