No final, eu era apenas um pirata; um pirata vadio, melhor dizendo. Mas que pirata não é vadio, afinal?
Até os treze anos de idade a vida era fácil, não me lembro de nada antes dos treze, um tipo estranho de amnésia, por isso acredito que antes disso a vida era fácil.
Nessa época perdi minha virgindade, claro que foi com uma puta. Guardei todo o dinheiro que roubava por aí para poder pagar uma mulher, uma vadia que levaria minha pureza embora; não que eu tinha alguma pureza, claro. Todos os outros retardados dos meus amigos já tinha trepado antes e eu não podia ficar para trás. Lembro que dei só umas seis estocadas e já exporrei dentro dela, foi rápido, mas foi legal.
Um tempo depois um dos meus amigos morreu de pneumonia, ele já andava meio doentão, pegou essa coisa e bateu as botas. Na época não fazia idéia, mas hoje sei bem que ele tinha AIDS, filho da puta.
Aos dezesseis anos nasceu meu primeiro filho. Puta moleque bonito do carralho! Resolvi tomar jeito e arrumar um emprego descente. Antes disso só roubava para comer, comprar bebidas e cigarros. Nunca usei drogas pesadas, acho que por isso sou o único que ainda está vivo da antiga turma.
O único emprego que consegui arrumar foi de servente de pedreiro, em empreiteira. Logo eles me mandaram para outra cidade, onde estavam construindo uma ponte, uma ponte gigante pra cacete. Não via muito mais meu filho e nem minha guria. Sete meses depois eu vi uma laje esmagar um companheiro de serviço, o cara era um escroto que traia sua mulher com uma vagabunda das vizinhanças, mas mesmo assim ele não merecia morrer desse jeito, eu vi suas víceras espalhadas pelo cimento.
Abandonei o emprego e me meti numa coisa grande. Um grande assalto a banco. Se desse certo não ia mais precisar trabalhar e poderia ver meu filho crescendo com tudo de bom, se desse certo. Deu merda logo no início do assalto. Peguei dez anos de cana.
O primeiro homem que matei na vida foi na cadeia, era um veado sacana que tentou me enrrabar no chuveiro. Achei que isso só acontecia em filmes. Eu estrangulei o desgraçado com minha toalha, até que não me senti mau depois disso. O foda foi ter que ficar esperto com seus amigos veados. Tive que fugir dali, na primeira rebelião que apareceu dei um jeito de escapar.
Depois que virei um foragido, tive que abandonar minha família. Eles não podiam saber onde eu estava, senão seriam cúmplices e suas vidas iriam se tornar piores do que já estavam. Eu fodi com tudo, é verdade, mas sempre enviava uma grana para eles.
Por uns dez anos eu vivi trocando de cidades, praticando pequenos roubos para não chamar atenção. Fui vagando cada vez mais para o oeste, passei por Argentina, Peru e Venezuela, aprendi bastante com esses sacanas, eles sabem extrair alguma coisa boa da miséria que vivem.
Por fim acabei atravessando o Chile e dando de cara com o Pacífico. Morei por uns tempos em uma cabana beira mar. Mas eu era louco, no porto consegui me infiltrar em um cargueiro chinês. Eu era louco e burro, na verdade. Pois fiquei escondido dentro de um container, fiquei preso, estou preso. Faz uns dois dias, acho, que estou sem comida e água. Estou batendo nas paredes mas ninguém vem ao meu socorro. Acho que os putos ouvem as batidas e dão risada. Sabem que só vão encontrar um corpo em decomposição quando abrirem essa merda de container.